Região fechou ano a dever 453,9 milhões de euros a fornecedores
Segundo a Conta da Região, dívida comercial cresceu 17,7 milhões de euros entre 2024 e 2025. Dívida da Saúde supera os 200 milhões de euros. Governo diz que dívidas dos hospitais já estão liquidadas, mas inclusão deve-se a “particularidade contabilística”. Economista fala em “descontrolo” da dívida comercial.
A dívida não-financeira (também conhecida como dívida comercial) da Região Autónoma dos Açores em 2025 ascendeu a 453,9 milhões de euros (ME), de acordo com a Conta da Região. Trata-se de um aumento de 17,7 ME face ao ano passado.
Segundo o documento, publicado esta semana, a dívida a fornecedores a 31 de dezembro de 2025 era de 453,9 ME, dos quais 205,9 ME dizem respeito ao subsetor da Administração Regional Direta (ARD), 203,7 ME ao subsetor das Empresas Públicas Regionais (EPR) e os restantes 44,2 ME do subsetor dos Serviços e Fundos Autónomos (SFA).
Escalpelizando os números, no subsetor da ARD, a grande fatia diz respeito aos Serviços Integrados (91,1 ME), seguindo-se a Portos dos Açores(50,6 ME), e a SATA Air Açores, com 48,2 ME (dos quais 47,5 ME referentes ao contrato de concessão de transporte interilhas).
No subsetor SFA, quase metade (18 ME) diz respeito ao Fundo Regional de Coesão e ao Desenvolvimento Económico. Incluídos nesta rubrica estão as unidades de saúde de ilha e o Centro Oncológico dos Açores, que no conjunto devem 7,2 ME a fornecedores. A Unidade de Saúde de Ilha de São Miguel tem a maior fatia (2 ME), seguida da Terceira (1,8 ME) e Pico (1,2 ME).
Por último, o subsetor das EPR tem nas três unidades hospitalares da região o seu “calcanhar de Aquiles”, sendo responsável por 199,8 ME dos 203,7 ME de dívida comercial total. Só o Hospital do Divino Espírito Santo, de Ponta Delgada, “contribui” com 122,2 ME, sendo, em termos brutos, o principal devedor da região.
Comparando com 2024, a dívida comercial cresceu 17,7 ME:com o crescimento tanto na ARD, como nas EPR a abafar o assinalável decréscimo nos SFA (com relevância para as unidades de saúde de ilha e Centro Oncológico dos Açores, que baixaram 25 ME em 2025, em especial a USI de São Miguel, na ordem dos 90%).
O valor em dívida a fornecedores dos hospitais subiu de 179.4 ME em 2024 para os 199,8 ME no ano passado, muito por conta do HDES (+16,2ME) e do Hospital do Santo Espírito da ilha Terceira (+9,2 ME), visto que o Hospital da Horta até reduziu o valor (-4,7 ME).
Secretário regional destaca tendência decrescente do aumento da dívida
Contactado pelo Açoriano Oriental, o secretário regional das Finanças, Planeamento e Administração Pública, Duarte Freitas, sublinha a “significativa melhoria”, comparativamente com os últimos dois anos.
“O crescimento de cerca de 17,7 ME do último ano compara com os 56,6 ME de 2023 para 2024 e com os 100,3 ME entre 2022 e 2023. Isto é, há uma tendência decrescente”, assinala.
Números que até podiam ser melhores, só não o são, explica o governante com a pasta das Finanças, devido aos acordos de pagamento estabelecidos entre os três hospitais da região, os fornecedores e a entidade bancária, uma “particularidade técnica contabilística”.
Duarte Freitas indica que as dívidas aos fornecedores já foram “efetivamente liquidadas”, mas “contabilisticamente” continuam nas contas da região.
“À medida que o banco vá sendo pago, sai da rubrica dos fornecedores. Algo que só se refletirá em 2026, 2027 e 2028”, acrescenta.
Para o secretário regional das Finanças, retirando as dívidas comerciais dos hospitais, a região apresentaria uma redução da dívida a fornecedores.
“O esforço tem sido grande e estimamos que em 2026, 2027 e 2028 isso já possa ser bastante mais expressivo e passarmos deste caminho para o ‘verde’”.
Já para o economista e professor da Faculdade de Economia e Gestão da Universidade dos Açores, João Teixeira, os números revelados pela Conta da Região expressam um “certo descontrolo ao nível da dívida comercial na administração
pública regional”.
Isto porque, sustenta, a região contraiu, nos últimos dois anos, empréstimos no valor global de 225 ME para regularizar pagamentos em atraso, pelo que, diz, “seria de esperar que houvesse uma redução da dívida comercial. Não foi a isso que nós assistimos, não só não houve uma redução, como ainda aumentou em 75 ME”.
“Posso concluir que há um certo descontrolo ao nível da dívida comercial na administração pública regional: o governo regional teve uma oportunidade de contrair financiamento bancário para regularizar os pagamentos em atraso, mas as contas de 2025 não espelham essa redução”, acrescenta, assinalando que, se o termo de comparação for com os números de 2023, o aumento da dívida a fornecedores é da ordem dos 73 ME.
João Teixeira deixa a hipótese do Governo Regional usar os empréstimos efetuados “para reembolsar os fornecedores não em 2025, mas nos próximos anos”, mas considera que é um risco, pois “não haverá mais oportunidades para contrair empréstimos para já, visto que o Orçamento Regional de 2026 não prevê que o Governo Regional dos Açores volte a endividar-se para pagar dívida comercial”.
Diário Insular (09/07/2026)





