CCIAH critica silêncio seletivo da Secção Regional da Ordem dos Médicos dos Açores
A Câmara do Comércio e Indústria de Angra do Heroísmo (CCIAH) recebeu com profunda perplexidade a “Carta Aberta sobre a Reabilitação do HDES”, recentemente divulgada pelo Conselho Médico da “Secção Regional” dos Açores da Ordem dos Médicos.
Mais do que o conteúdo do documento, causa-nos indignação o evidente carácter seletivo da intervenção pública agora assumida pela “Secção Regional” dos Açores da Ordem dos Médicos relativamente ao Serviço Regional de Saúde.
A “Secção Regional” dos Açores da Ordem dos Médicos entende pronunciar-se publicamente sobre opções estruturais e organizacionais relacionadas com o HDES, mas manteve um silêncio absoluto perante acusações públicas de extrema gravidade que recentemente vieram a público relativamente à recusa da deslocação de médicos especialistas do HDES ao Hospital de Santo Espírito da Ilha Terceira, durante o período dramático que se seguiu ao incêndio do HDES e à transferência de doentes para a Terceira.
Estamos a falar de alegações gravíssimas, relacionadas com a eventual recusa de apoio médico especializado numa situação de emergência regional, envolvendo profissionais que pertencem ao principal hospital dos Açores, num dos momentos mais delicados da história recente do Serviço Regional de Saúde.
Sobre isso, nem uma palavra.
E mesmo admitindo — hipótese em que francamente não acreditamos — que tais factos fossem desconhecidos da “Secção Regional” dos Açores da Ordem dos Médicos, então esse desconhecimento seria, por si só, suficientemente grave para justificar a imediata abertura de um inquérito interno por parte da instituição, face à dimensão e impacto público das acusações feitas.
Mas a “Secção Regional” dos Açores da Ordem dos Médicos preferiu o silêncio.
Esse silêncio torna particularmente difícil aceitar lições de “elevação”, “rigor” ou “responsabilidade institucional” vindas de quem optou por não se pronunciar quando estavam em causa princípios elementares de solidariedade regional, ética médica e cooperação entre unidades hospitalares dos Açores.
Acresce ainda que esta tomada de posição surge ferida de um evidente problema de legitimidade e representatividade regional.
A chamada “delegação regional” da Ordem dos Médicos não representa, na prática, todos os médicos dos Açores, uma vez que os órgãos sociais da “Secção Regional” dos Açores da Ordem dos Médicos são constituídos na sua quase totalidade por médicos ligados a Ponta Delgada, praticamente sem representação das restantes ilhas e realidades hospitalares da Região Autónoma.
Mais grave ainda é o facto de existirem elementos ligados à “Secção Regional” dos Açores da Ordem dos Médicos que integraram simultaneamente estruturas responsáveis pela elaboração do plano operacional do HDES e que mantêm relações diretas com entidades privadas de saúde envolvidas neste processo, nomeadamente a CUF, entidade que claramente tem interesse num modelo hospitalar que garanta cobertura e suporte à sua própria atividade clínica privada.
Essa promiscuidade entre funções, interesses e posicionamentos públicos fragiliza profundamente a credibilidade e a independência da posição agora apresentada.
Infelizmente, os factos demonstram que a “Secção Regional” dos Açores da Ordem dos Médicos parece hoje mais preocupada em servir determinados lóbis instalados numa parte restrita do sistema de saúde regional do que em assumir uma posição verdadeiramente independente e centrada nos doentes açorianos e na defesa global do Serviço Regional de Saúde.
A ausência total de qualquer posição pública relativamente às gravíssimas acusações tornadas públicas no Diário Insular do passado dia 8 de Maio — relacionadas com a alegada recusa de deslocação de médicos especialistas do HDES para apoiar o Hospital de Santo Espírito da Ilha Terceira num momento de emergência regional sem precedentes — é particularmente reveladora dessa postura seletiva.
Quando estão em causa princípios básicos de solidariedade regional, cooperação institucional e defesa dos doentes açorianos, o silêncio não pode ser considerado neutralidade. O silêncio, neste caso, é também uma posição.
A CCIAH entende que os Açores precisam de uma “Secção Regional” da Ordem dos Médicos verdadeiramente regional, independente e comprometida com todos os açorianos, e não condicionada por interesses corporativos, territoriais ou por relações de proximidade com estruturas privadas de saúde.
Perante a enorme gravidade pública dos factos relatados, a CCIAH irá solicitar a abertura de averiguações e inquéritos às entidades competentes, designadamente à Inspeção Regional da Saúde, à Ordem dos Médicos nacional e à Secretaria Regional da Saúde, no sentido de serem apuradas responsabilidades e esclarecidos os açorianos sobre o que efetivamente aconteceu naquele período crítico do Serviço Regional de Saúde.
A Região precisa de um debate sério sobre o futuro do Serviço Regional de Saúde.
Mas esse debate exige transparência, imparcialidade e autoridade moral. E infelizmente, ao escolher intervir apenas quando determinados interesses estão em causa, ignorando outros episódios muito mais graves e humanamente mais sensíveis, a Ordem dos Médicos comprometeu seriamente a sua capacidade de se afirmar como voz isenta e agregadora no debate regional sobre a saúde.
A saúde dos Açores não pode continuar a ser conduzida numa lógica centralista, corporativa e territorialmente desequilibrada.
Os Açores necessitam de um sistema regional de saúde focado no doente e com redundância hospitalar e é nesse sentido que todos devemos trabalhar.





