Marcos Couto acusa Jorge Rita de "ofensa" às restantes ilhas
O presidente do Conselho de Ilha da Terceira, Marcos Couto, teceu ontem duras críticas a Jorge Rita, presidente do Conselho de Ilha de São Miguel.
Numa reunião em Angra do Heroísmo, dedicada a uma reflexão sobre os 50 anos da Autonomia, Marcos Couto reagiu às declarações proferidas por Jorge Rita na sua tomada de posse.
"Estas foram ofensivas e desrespeitosas para com as restantes ilhas dos Açores. Estou plenamente convicto de que não representam a população micaelense, a sua grandeza histórica e muito menos a relação com a Autonomia e com o contributo prestimoso que deu ao longo destes 50 anos para a história autonómica dos Açores. Representam apenas quem as proferiu e o nível de pensamento que escolheu trazer para o espaço público, que é fruto das suas próprias características intelectuais e da sua agenda pessoal", afirmou.
No final de abril, na instalação do Conselho de Ilha de São Miguel, Jorge Rita criticou "bairrismos doentios" e defendeu São Miguel como "farol".
Jorge Rita abordou também, na altura, o tema do Hospital do Divino Espírito Santo (HDES). "Não podemos aceitar de ânimo leve que alguém diga que a recuperação do nosso hospital vá onerar a nossa Região para sempre. É uma afronta demasiado elevada que já devia ter sido acabada. O hospital é preciso, é indispensável e não é fazendo um hospital mais pequeno do que havia, quando há mais turismo, mais pessoas e muitas mais necessidades", frisou.
Já o presidente do Conselho de Ilha da Terceira considerou que falta a Jorge Rita compreender o que é ser ilhéu. "O senhor presidente do Conselho de Ilha de São Miguel - e, atenção, que é também presidente da Federação Agrícola dos
Açores e não se pode vestir um casaco de defesa das ilhas num dia e, no outro, vestir um casaco de ataque a essas mesmas ilhas - precisa de compreender o que é acordar todos os dias, abrir a janela e ver no horizonte outra ilha", lançou.
"No fundo, falta-lhe perceber que numa região autónoma devemos ser irmãos e não padrastos. Quando alguém afirma, de forma rude e intelectualmente desonesta, que as restantes ilhas são um custo para São Miguel, representa um péssimo serviço à Autonomia", vincou.
Marcos Couto rejeitou o rótulo de bairrista. "Nos Açores sempre existiu um centralismo colonialista de Ponta Delgada perante a própria ilha e perante o arquipélago, que ultrapassa largamente aquele que é historicamente sentido pelos
Açores em relação a Lisboa. Perante esta realidade, inventou-se um adjetivo que tenta limitar quem ousa discordar: o bairrista. Não nos deixemos limitar por esse rótulo vazio. Muitas vezes ele é apenas a arma dos que não têm argumentos", alertou.
"Faço votos que todas as ilhas se insurjam contra esta tentativa de humilhação das parcelas do arquipélago. Porque quando se humilham oito ilhas, humilha-se a própria Autonomia. Depois da teoria da locomotiva, que nos levou onde estamos, os mais pobres da Europa, eé importante não esquecermos isso, surge agora a teoria do farol. Sendo que os Açores, o que sentem na prática, é a aplicação da teoria do eucalipto. Seca tudo à sua volta", argumentou.
Marcos Couto deu o exemplo da vice-presidência do Governo Regional. "Todos se recordam: quando o Partido Socialista governava, o que se dizia era que Sérgio Ávila mandava nos Açores. Agora, quem está no poder é uma coligação, quem manda nos Açores é Artur Lima. E quem manda no Governo Regional também é Artur Lima. Obviamente que nenhuma das realidades é verdade. Este, mais uma vez, é o argumento dos fracos. Dos que procuram culpados em vez de soluções. Dos que pretendem limitar o crescimento de determinadas ilhas para justificar a incapacidade coletiva de construir um modelo verdadeiramente equilibrado", afirmou.
Marcos Couto abordou também o futuro dos Açores, que voltou a defender que passa "pelo municipalismo e por uma verdadeira descentralização interna".
Para o líder do Conselho de Ilha e da Câmara do Comércio Indústria de Angra do Heroísmo, é preciso "repensar o atual modelo", que está "esgotado", sendo que a "culpa não é de Lisboa, é exclusivamente nossa".
Diário Insular (16/05/2026)





