"Quebras no turismo são reflexo da falta de promoção" (Marcos Couto)
Para o presidente da Câmara de Comércio e Indústria de Angra do Heroísmo, é "redutor" justificar as quebras no turismo com a saída da Ryanair. Marcos Couto pede um reforço da promoção.
A Ryanair deixou de voar para os Açores, este fim de semana. Que cenário se coloca no transporte aéreo para a região com esta saída?
Eu imagino que possam existir alguns constrangimentos no que diz respeito ao número de lugares disponíveis no próximo verão. O que eu acho mais preocupante, neste caso, é quando se juntam dois fatores: o facto de a operação da SATA para o verão de 2026 prever menos de 32.703 lugares e isso ser cumulativo com o fim da operação da Ryanair. A combinação destes dois fatores é altamente penalizadora para os Açores. É significativo. Não sei o que é que a TAP conseguiu compensar, mas, tanto quanto sei, não compensa estes lugares. Isto poderá criar alguma pressão sobre os preços. Vai criar uma falsa ideia de que a Ryanair baixava os preços. Na realidade, não é isso que está a acontecer. O que está a acontecer é que a falta de lugares disponíveis, fruto do abandono da Ryanair e da diminuição da oferta de lugares da SATA, faz com que, obviamente, a lei da oferta e da procura faça com que o preço aumente e que tenhamos aqui uma ideia absolutamente errada de que era a Ryanair que fazia baixar os preços. Não será esse o caso. Uma segunda questão que me parece importante é começarmos a abandonar esta ideia de que o turismo está a decrescer por causa do fim da Ryanair. A Ryanair abandonou a região, reduzindo em 75% a sua operação, em 2023, e os números do turismo cresceram sempre de forma consistente ao longo deste tempo. Os números do turismo decrescem a partir de setembro de 2025 e a Ryanair ainda cá estava. Essa descida mantém-se em janeiro, fevereiro e março e a Ryanair ainda se matinha. O que nós temos é, efetivamente, um reflexo da falta de promoção do destino. A própria Visit Azores, por razões variadíssimas, apenas executou sensivelmente 40% do seu orçamento. É esta falta de investimento no destino que leva a que estejamos na situação em que estamos. Atribuir isto à Ryanair é redutor e leva a uma ideia errada de que aquilo que se está a passar é uma questão absolutamente conjuntural, quando é uma questão estrutural, pela falta de promoção. Parece-me essencial que comecemos a olhar para este problema de uma forma séria e não na espuma dos dias que o tema Ryanair traz.
A redução de lugares e a falta de promoção fazem antever um verão complicado para o turismo nos Açores?
O 'feedback' que nós temos é que, para já, para o verão, os números estarão razoáveis. O que se nota é alguma diminuição da época alta, a começar mais tarde e a acabar mais cedo. Mas nos meses fortes, prevê-se uma ocupação sensivelmente semelhante.
Problema estrutural
"É esta falta de investimento no destino que leva a que estejamos na situação em que estamos. Atribuir isto à Ryanair é redutor e leva a uma ideia errada de que aquilo que se está a passar é uma questão absolutamente conjuntural, quando é uma questão estrutural, pela falta de promoção. Parece-me essencial que comecemos a olhar para este problema de uma forma séria e não na espuma dos dias que o tema Ryanair traz".
A sazonalidade está a acentuar-se?
Eu diria que sim, mas também não podemos fazer esta análise de uma forma tão leviana. A conjuntura internacional não é de todo favorável, a conjuntura nacional também não é favorável e todos estes fatores combinados, necessariamente e obrigatoriamente, vão criar dificuldades ao turismo regional nos próximos tempos. Portanto, eu alerto novamente para a forma como se tem olhado para o problema do turismo, como se o problema do turismo se resumisse à Ryanair. Não se resume. Na nossa opinião, é uma questão muito mais profunda, muito mais sistémica e que tem que ter uma resolução rápida. O turismo é um mercado extremamente competitivo e em que quem desaparece, esquece. É isso que está a acontecer claramente e os resultados revelam-se automaticamente.
Que resposta espera do Governo Regional para fazer face a esta situação?
Desde logo, que seja rapidamente nomeado o novo conselho de administração da Visit Azores, que seja alguém com conhecimento na matéria e que sejam dados recursos financeiros para essa promoção. Entendemos que é essencial que esteja definido claramente o rumo que queremos para os Açores e como é que queremos trabalhar, de forma a que possamos rapidamente recuperar os índices de crescimento que tivemos ao longo dos últimos dois anos, sendo que também me parece que não será fácil que isso aconteça na conjuntura atual. Vai levar mais algum tempo.
Já disse que os vazios se preenchem. Quem é que acha que pode preencher este vazio deixado pela Ryanair?
Julgo que não teremos a ocupação desse vazio por uma outra companhia 'lowcost'. Quero acreditar que a TAP e a SATA serão as companhias que, à primeira, irão ocupar esse vazio. São muitos lugares e 'slots' deixados em aberto. Quero acreditar que estas duas companhias irão começar por ocupá-los. E acho também que é urgente continuar um trabalho de atratividade das companhias aéreas para o destino Açores.
É preciso capar novas rotas internacionais?
Não necessariamente. Um dos grandes erros estratégicos dos Açores, em termos de promoção turística, foi achar que se conseguia promover na rota ponto a ponto, ou seja, os Açores serem capazes de, por si só, gerarem volume para abastecer rotas de turismo durante todo o ano. Os Açores têm alguma capacidade de ponto a ponto durante a época alta, não têm nenhuma capacidade de abastecer o ponto a ponto no inverno. E enquanto continuarmos a insistir em erros estratégicos destes, dificilmente vamos quebrar a sazonalidade. É preciso, desde logo, alterar este paradigma da forma como olhamos para os Açores e começarmos a ver os Açores como um ponto de paragem e perceber como é que trabalhamos isto em complementaridade com outros destinos. É isso que, neste momento, a Câmara de Comércio e Indústria de Angra do Heroísmo já está a fazer com a cidade do Porto e que já começou a fazer com algumas companhias aéreas. É um trabalho que vai aprofundar. Os Açores têm de olhar para este exemplo se se quiserem salvar dentro dos próximos anos, porque senão, não vamos quebrar a sazonalidade.
Diário Insular (31/03/2026)





