Comissão para futuro do hospital de São Miguel está cheia de centralistas (Marcos Couto)
Assustado com os "centralistas" na comissão de análise ao futuro do hospital micaelense, Marcos Couto lembra promessas do presidente do Governo e da secretária da Saúde que espera não sejam vãs. É contra um hospital central-universitário e contra exaurir o sistema público a favor da saúde privada. E defende que a Ribeira Grande necessidade de um hospital.
Acaba de ser nomeada a comissão que vai analisar o plano funcional destinado à reestruturação do Hospital de Ponta Delgada, vítima de um incêndio em 2024. Que comentários lhe merece a constituição da comissão?
A minha primeira reação foi de choque. Quem conhece o Dr. Luís Maurício e a Dra. Paula Macedo sabe que são figuras profundamente centralistas. Ao lado deles, aqueles que me chamam bairrista verão em mim apenas um aprendiz. Depois do choque inicial, lembrei-me das garantias dadas pelo Sr. Presidente e pela Sra. Secretária da Saúde: que não haveria hospital central ou universitário nos Açores. Tenho-os por pessoas sérias e, acreditando na sua palavra, essa recordação trouxe-me alguma tranquilidade no meio da estupefação.
Racionalidade no sistema hospitalar
"O modelo racional tem três pilares. Primeiro, redundância: reforço dos hospitais da Terceira e da Horta e construção do hospital da Ribeira Grande. Segundo, qualidade formativa: médicos a fazer parte da sua formação em hospitais de referência nacionais, trazendo depois essa experiência para a região. Terceiro, atratividade: criar mecanismos modernos e competitivos de fixação de profissionais de saúde. Este é o caminho que garante qualidade e acesso".
Parece que há duas propostas, de outras tantas empresas, para a reestruturação do hospital micaelense. Porém, nenhuma das propostas é do conhecimento público. Como se pode interpretar este aparente secretismo?
Este é um mal crónico dos Açores: o secretismo que se confunde com opacidade. Quando tudo é escondido, quando nada é explicado, inevitavelmente surgem teorias da conspiração. O processo do HDES é exemplo disso: do incêndio ao combate, da substituição do Conselho de Administração aos relatórios técnicos, dos planos funcionais à constituição desta comissão, tudo se faz na sombra. Para além deste, dou apenas mais um exemplo, para não ser fastidioso: basta comparar com a TAP, onde o escrutínio é público e transparente, com a SATA, onde, pelo contrário, reina o argumento do "segredo comercial". É degradante e envergonha-nos como sociedade.
Tanto quanto se sabe, por fontes citadas pela comunicação social, os dois planos funcionais coincidem na alegada necessidade de dar um perfil universitário ao HDES, além de sugerirem a modernização da infraestrutura, externalização de serviços e realização de intervenções na urgência, intensivos e bloco operatório. A ser assim, que comentários estas propostas merecem da sua parte?
Estes planos foram encomendados pela administração do HDES, não pela tutela. Isso, só por si, retira-lhes credibilidade, porque a política de saúde deve ser definida pela Secretaria Regional da Saúde, não por uma administração hospitalar. Quanto ao chamado "perfil universitário", ninguém explica o que significa. Se for apenas a nova designação para hospital central/universitário, convém recordar que esta intenção já existia antes do incêndio. Quanto à externalização de serviços, por sua vez, repete a mesma cartilha de sempre: favorecer interesses privados, em particular ligados à CUF, em vez de otimizar a capacidade das unidades públicas. O que verdadeiramente falta nestes planos é o essencial: a construção do hospital da Ribeira Grande, que daria resposta às necessidades da população micaelense. Esse é o caminho que deveríamos estar a discutir.
Entre centralistas e promessas
"Quem conhece o Dr. Luís Maurício e a Dra. Paula Macedo sabe que são figuras profundamente centralistas. Ao lado deles, aqueles que me chamam bairrista verão em mim apenas um aprendiz. Depois do choque inicial, lembrei-me das garantias dadas pelo Sr. Presidente e pela Sra. Secretária da Saúde: que não haveria hospital central ou universitário nos Açores. Tenho-os por pessoas sérias e, acreditando na sua palavra, essa recordação trouxe-me alguma tranquilidade no meio da estupefação".
É do domínio público que a SATA "a jato" foi criada para abastecer de turistas o mercado micaelense. Agora constitui um buraco nas contas para ser pago por todos os açorianos. Poderemos correr o mesmo risco com um super-hospital e com os seus custos previsíveis de funcionamento?
O risco é real. O buraco financeiro será inevitável e já está quantificado, mas preocupa-me sobretudo a qualidade formativa. A Universidade dos Açores mostrou, ao longo de décadas, as consequências de formar quadros fechados sobre si próprios, sem mundividência. Querem agora replicar esse modelo na saúde. O curso básico de medicina em São Miguel já recebeu cerca de mil alunos, 85% açorianos. No entanto, apenas 50 ficaram a exercer nos Açores. Esse dado desmonta o argumento de que um hospital universitário iria fixar médicos. O que precisamos não é de um super-hospital, mas de planificação, vagas em grandes centros nacionais e depois mecanismos de fixação nos açores eficazes.
O que poderá ser entendido como um modelo hospitalar racional para um espaço como o arquipélago dos Açores?
O modelo racional tem três pilares. Primeiro, redundância: reforço dos hospitais da Terceira e da Horta e construção do hospital da Ribeira Grande. Segundo, qualidade formativa: médicos a fazer parte da sua formação em hospitais de referência nacionais, trazendo depois essa experiência para a região. Terceiro, atratividade: criar mecanismos modernos e competitivos de fixação de profissionais de saúde. Este é o caminho que garante qualidade e acesso. Tudo o resto é perpetuar a mediocridade e sacrificar a saúde dos açorianos. Só com este modelo temos qualidade nos serviços e equilíbrio financeiro. Tudo o que não conseguimos até ao momento.
Diário Insular (30/09/2025)





